Por Daniel Saraiva em 23 de novembro de 2016

Trabalhar com moda é ser visto como um personagem do filme Diabo Veste Prada. Bom, ao menos é quase sempre assim. E quando falamos que somos blogueiros automaticamente surgem na mente das pessoas flashes de imagens de street style que apreciamos no tumblr e pinterest. São visões distorcidas que muitos acabam criando, infelizmente. E não adianta bater na tecla contrária quando há profissionais do meio que realmente alimentam essa ilusão (sendo  eles os que possuem uma maior proximidade com o público). De fato trabalhar com moda é estar por dentro de todas as principais tendências e saber com antecedência tudo o que será febre nas estações. É ver de perto todo aquele glamour e chegar a suspirar com todo o processo de criação e trabalho de algumas marcas. Mas na hora de alimentar o desejo consumista e sair igual à Rebeca Bloom de Os Delírios de Consumo de Rebeca Bloom, vários fatores vêm em nossa mente – e só quando acompanhamos de perto tudo isso começamos a pensar e repensar na hora de uma compra.

Logo quando mergulhei a fundo no universo da moda e comecei a realmente estudar e a aplicar todo aquele conhecimento e aquelas dicas no meu estilo pessoal, acabei me deslumbrando com tudo o que via, pois tudo o que era diferente e atual despertava meu interesse a ponto de querer logo comprar. Passei a bancar o consumista, chegando a gastar todos os meses muito dinheiro para adquirir todas as principais tendências. Chegando a fazer até lista com cada item que gostaria de possuir e o que é pior: a cada compra os itens dela não diminuíam, pelo contrário: tudo só tendia a aumentar, isso porque a cada mês surgia um novo item para compor a tal lista. Foi então que percebi que estava entrando em algo sem fim e comecei a pensar se realmente valia a pena tudo aquilo. O resultado de toda aquela farra consumista foi um guarda-roupa abarrotado de roupas as quais muitas vezes eu nem chegava a usar todas as peças, algumas delas usei apenas uma vez devido à elevada quantidade. Pois é, fui me dando conta de que moda é algo que está muito além do consumismo. Hoje vejo muitas tendências que me fazem pirar, mas poucas são as que levo para casa. Ainda tenho aquele desejo de um estilo pessoal, mas estou investindo no que possuo ao invés de procurar o que não tenho. Para ser bem sincero nem lembro qual foi a minha última aquisição de moda.

Hoje não permito mais roupa acumulada no guarda-roupa. Gosto de moda, mas odeio desperdício e acabei me dando conta de que um não precisa necessariamente estar ligado ao outro, assim como também não preciso ter roupa de grife para estar bem apresentável. Nunca comprei em brechós ou bazares, apesar de achar a ideia ótima, mas adoro trocar peças com amigos e até mesmo doar as que não uso mais. E foi com essa onda de consumo consciente que ando aplicando em meu cotidiano que comecei a ser mais exigente na hora de escolher as peças que entrarão para o meu guarda-roupa. Me pergunto se preciso realmente de mais uma roupa no meio das tantas que já tenho ou caso precise realmente comprar, me desfaço de alguma justamente para não acumular. Ter um estilo diferenciado dos demais, aquele estilo a la Garoto in Foco não significa ter peças de sobra: o que é necessário ter de sobra é criatividade para se reinventar com as peças que já se possui.

Ao contrário do que muitos pensam, não é feio herdar peças de segunda mão de outra pessoa, mesmo que elas estejam um pouco surradas, sejam maiores que sua numeração ou mesmo estejam ultrapassadas. Hoje a moda é tão livre que todos esses obstáculos que nos impediam de usar certos tipos de roupa se tornaram vantagens, eu mesmo às vezes troco algumas peças com amigos, pois em meio à crise que nosso país enfrenta comprar roupa nova com frequência virou sinônimo de luxo.

Bom, claro que ainda tenho desejo por muitas peças, mas estou priorizando outras coisas no momento e investindo mais no que já possuo. Tenho vontade de ousar mais e me expressar cada vez mais através do meu estilo e usar o que já tenho para isso, além de estimular a criatividade é um ótimo incentivo para quem quer se vestir bem e acha que pra isso precisa sair por aí com as mãos cheias de sacolas e os bolsos pra lá de vazios. Quero poder me inspirar em estilos coreanos, franceses e por aí vai, mas acredito que não seja o tempo ainda, então prefiro guardar essas inspirações no pinterest enquanto usufruo do que já possuo. Mas fiquem ligados, pois chega uma hora em que a limpeza do guarda-roupa é feita naturalmente e aos poucos você vai se dando conta de que estão nascendo novas ideias e inspirações. Tudo é válido, desde que te faça bem. Se comprar é bom, recriar a partir do que já temos é inspirador também.

Abraços!

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