Todos os posts sobre PAPO DE GAROTO
Por Daniel Saraiva em 25 de maio de 2017

Recentemente me deparei com um comercial do Axe falando sobre como o machismo interfere na vida dos homens. Achei a ideia genial e necessária, já que vivemos em um mundo machista que massacra tanto homens quanto mulheres, mas os homens não têm coragem de colocar a boca no trombone e sofrem calados, vítimas deles mesmos.

De uns tempos pra cá temos acompanhado o crescimento do movimento feminista, o que é algo maravilhoso. A igualdade de gênero precisa e deve ser cada vez mais discutida, pregada e, principalmente, praticada. Há quem se contraponha, reclame, esperneie e acredite piamente que o feminismo é radicalismo por parte das mulheres e massacrante para os homens. Porém, somente quem não conhece de fato as necessidades do movimento e ainda não parou para fazer ao menos uma simples reflexão, acaba por condená-lo.

O feminismo não coloca a mulher em posição de vantagem sobre os homens, pelo contrário: reivindica respeito à igualdade de direitos, à conquista da liberdade pelo sexo feminino, liberdade essa necessária, que deveria ser um direito natural, porém, negada durante toda a história da humanidade. Mas será que é só às mulheres que o feminismo beneficia?

Em contraponto, temos o machismo, que tem a mulher como ser inferior e pré-determina quem está no comando – os homens, no caso. Porém, muita gente não se dá conta de que esse mesmo machismo que oprime as mulheres, acaba fazendo o mesmo também com os homens, porque define quem pode fazer o quê, atribuindo regras e funções aos gêneros e privando a nós, seres humanos, do nosso direito de sermos quem realmente somos, da maneira que queremos.

Assim, o machismo nos prejudica sim, e muito. Querem saber como? Ah, tem muitas maneiras. Inclusive eu mesmo tenho sofrido certa perseguição por causa disso. Porque homem que é homem não usa essa ou aquela peça de roupa. Usei croped em uma campanha e fui recriminado. Homem que é homem não usa calça colada, não se depila, não pode ser vaidoso. E você fica se perguntando a origem dessa trogloditagem toda, porque olha, não vejo sentido em nada que exista apenas com a função de limitar os outros. Porém, muita gente vive de pregar justamente isso. Mais um motivo para louvarmos a iniciativa do Axe.

Homens, esqueçam o machismo. Passamos a vida nos reprimindo, engolindo o choro, tendo que ser fortes, bons de briga, dominadores, namoradores, conquistadores baratos, durões, independentes, seguros e tudo o que a sociedade espera de nós. E o que ganhamos em troca? Sinceramente, nada. Nenhuma vantagem, nenhum benefício, nenhum mérito além de um monte de gente machista nos presenteando com elogios que cá entre nós, não servem para nada.

Obrigado por me entender, Axe. Obrigado por trazer à tona questionamentos tão úteis e necessários. Prefiro mil vezes o direito de chorar quando sentir vontade, de expressar medo, insegurança, de falar sobre o que eu sinto, de gostar de me vestir diferente, de não fazer o estilo machão, de não fazer sexo só por fazer, de não acumular mulheres apenas para prestar contas com a sociedade e poder sim, cuidar da minha aparência. Quero poder ser eu mesmo, sempre, na essência. Eu sou homem e quero igualdade de gênero. Quero ser livre, pra valer. E tudo o que o machismo não me permitiu até hoje, me desculpem, mas irei fazer.

 

Abraços!

“Na dúvida sobre o que vestir no casting de desfile opte por roupas totalmente pretas e de preferência use botas, pois elas passarão a ideia de que você é alto. Como somos modelos baixos dificilmente pegaremos desfiles, mas temos que passar essa falsa impressão de altura”, disse uma amiga que hoje é considerada uma das melhores modelos do Brasil e já pisou em várias passarelas. Essa foi sua resposta após eu lhe pedir ajuda em relação ao que deveria usar, logo que entrei nesse mercado. Apesar de possuir 1,80m de altura, para o mercado eu era considerado sempre muito baixo e isso me deu uma insegurança a qual carreguei comigo durante anos. Nunca imaginei que após essa conversa passaria tanto tempo indo a seleções usando somente botas e calças pretas com o objetivo de dar aquela falsa impressão.  Nos castings sempre era necessário mentir minha altura, pois se chegasse falando a verdade certamente seria descartado de imediato.

Mas esse tipo de atitude não era privilégio meu, havia modelos que assim como eu escolhiam sapatos com o solado o mais grosso possível também, no intuito de dar mais altura. Tudo isso porque modelos femininas de passarela tinham de 1,78m a 1,80m e com salto poderiam ficar maiores que os modelos masculinos e, claro, para o mercado não é esteticamente atraente mulheres mais altas que os homens. E são em momentos assim que surge o questionamento: de onde vem essa ideia de que homem não pode ser mais baixo do que mulher?

Ainda buscando respostas, vale ressaltar que a vida não se resume apenas as passarelas, ou seja, isso não é apenas um problema meu. Houve tempos em que tive a oportunidade de conversar com alguns garotos e até com alguns amigos e sempre era mencionado durante a conversa a já tão conhecida insatisfação com a altura, mesmo sabendo que todos estão no padrão de estatura brasileiro. Mas, e então, podemos dizer que a culpa é somente da moda? Não, mas matérias e dicas que o mercado insiste em pregar, como “dicas para alongar e afinar a silhueta” dão mais ênfase a esse complexo. Já cheguei a ler jornalistas e blogueiros mencionando o quão ridículo é um homem usar peça que dá a aparência de mais largo ou que lhe deixam “achatado”. Matérias como essas também circulam facilmente entre o mercado feminino, criando um padrão de estética de que o elegante são mulheres altas e magras. Infelizmente, com isso é criado um falso padrão de beleza prejudicando mulheres que não possuem esse biotipo e isso acaba afetando também os homens, mesmo que indiretamente, pois criamos a teoria (e algumas mulheres insistem em dar força para isso) de que homens devem ser mais altos que mulheres. Percebem o quanto isso é uma situação delicada?

Entendam, essas inseguranças (que não são exclusividade minha) modelos femininas, por exemplo, sempre têm receio com relação a estrias, celulite e quadril maior do que o padrão. Nos garotos a altura, barriga, cabelo, calvíce ou espinhas são características que até podem ser melhoradas, mas que tudo isso depende de existir uma aceitação por parte da pessoa e seu desejo de mudar ou não, porque é algo que está no seu corpo, como característica sua. Demorou muito para que essa insegurança saísse de mim, na verdade achava eu que jamais viveria sem ela. Durante a sessão de fotos sempre pedia o fotografo que fotografasse debaixo para cima, na tentativa de me alongar. Essas inseguranças podem lhe dominar, caso você não revide e comece a se impor. É preciso entender que características assim não te fazem menos atraente ou um modelo ruim. É necessário que se reconheça o talento que você possui sem precisar focar apenas no que te diminui, mas principalmente valorizando o que você realmente é.

Lógico que nem tudo se resume a essas matérias, mas é importante entender que você não precisa deixar de usar uma peça de roupa porque ela te deixou mais largo ou mais baixo, afinal isso de maneira alguma tira sua beleza. Mulheres, vocês não precisam se parecer com algumas modelos em questão de corpo. Homens, não é necessária “altura de modelo de passarela” para ser considerado bonito. Não deixe de apostar nas roupas que você quer independente delas te deixarem mais isso ou aquilo, afinal o que vale não é a aparência, mas a identidade e personalidade que você tem ao vestir roupas assim. Devemos sim, nos desprender cada vez mais desses rótulos. Se peguei passarela com minha altura? Poucas, daquelas de se contar nos dedos, mas isso não tira o crédito de coisas grandiosas das quais já tive o prazer de participar. E incrível como elas só apareceram agora, após desistir de tentar me encaixar no molde que o mercado queria me impor para finalmente passar a ser eu mesmo.

E quanto às marcas, é preciso repensar se o padrão imposto nos seus desfiles é algo conivente com nosso país multicultural e multirracial, pois há muito tempo os desfiles deixaram de ser eventos apenas para profissionais da moda para se tornarem abertos ao consumidor final. Bom, espero que minha opinião esteja valendo, afinal quem vos fala não é apenas um modelo que é considerado baixo para seus padrões, mas um cliente que também não se sente representado nessas ocasiões muito menos se encaixa nos já tão batidos padrões.

Abraços!

Padrão: de acordo com essas definições que a gente encontra nos dicionários, significa “modelo a ser seguido ou exemplo a ser copiado”. Automaticamente me vêm à cabeça aquelas frases comparativas que ouvimos na infância, quando nossa mãe diz “você deveria ser como o fulaninho. Olha só o fulano, aquele é que é um menino bom. Por que você não faz igual a ele?” Pronto, bastam essas comparações pra gente começar a se sentir mal, afinal não somos o tal fulano e muito menos gostaríamos de ser. Tudo o que queríamos, na verdade, era sermos amados, aceitos e compreendidos do jeito que éramos, meio desengonçados, amarrotados, envergonhados ou mesmo com a nossa timidez.

O fato é que crescemos ouvindo esse tipo de comparação e aquilo vai mexendo com a nossa autoestima. Porém, há uma ponta de esperança. Acreditamos que na vida adulta as coisas serão diferentes, afinal adulto faz o que quiser, certo? Errado. Quer dizer, era pra ser o certo, mas não é bem assim que as coisas funcionam. A gente cresce e pode fazer as próprias escolhas, mas o fantasma do padrão ainda nos assombra e agora mais vivo do que nunca. Quer entender melhor? Então experimenta ser diferente do que todos estão acostumados a pensar que é o mais bonito, o melhor, o que deve ser seguido.

Quer um exemplo? Tenho vários. Coloque uma modelo com número 42 desfilando para uma grife famosa. Entendam, estou me referindo a modelo, nada de digital influencer, atriz ou alguém que já tenha um público fiel e cativo independente de qualquer coisa. Dará certo? Não tem nem perigo. Ninguém aceitará, pelo contrário: o número 42, que cá entre nós, é sim, um número como qualquer outro, será excluído, humilhado, massacrado e comparado ao 38, ao 36, etc e começará toda aquela história que a gente já conhece. Outro exemplo, que por sinal é bem comum: quantas modelos negras se vê num desfile aqui mesmo, nas passarelas do nosso país?

Agora dê uma olhada ao seu redor e me diga: o número de pessoas negras nos comerciais, nas campanhas, nas novelas, no teatro, nos desfiles e no cinema é correspondente ou proporcional ao da população brasileira? Claro que não, afinal inventaram algo chamado padrão e criaram para ele um monte de regras que a maioria de nós está longe de conseguir /querer seguir. São padrões que não são nossos, mas que nos impuseram e todos os dias tentam nos fazer engolir goela abaixo, como se fôssemos obrigados a nos adequar ao que os outros querem e não sermos o que realmente somos.

Contudo, não seguir, não fazer parte, ser “diferente”, implica na maioria das vezes em ser também excluído. Gente gorda na moda só ganhará espaço como modelo plus size, não apenas como modelo. Haverá sempre um rótulo para diferenciar um modelo de um “modelo negro”, como se só a palavra modelo representasse gente comum e todos os outros considerados fora do padrão precisassem de uma palavra-complemento, um sufixo, uma explicação. Mas não somos todos gente comum? Deveria mesmo existir essa separação? Eu entendo que há uma segmentação de público, de estilo, de gosto, que há moldes que são desenhados para esse ou aquele corpo, com essas ou aquelas medidas. Porém, acima de tudo, somos humanos. E ser humano é ser igual em direitos, é precisar de representatividade, mesmo com suas particularidades.

Quando decidi seguir a carreira de modelo eu sabia que seria difícil, mas não imaginava que fosse tanto. Imaginem só um cara magro, sem músculos definidos ou barriga tanquinho estampar campanhas de marcas de roupa ou de acessórios! Como vender produtos masculinos não sendo o padrão masculino esperado pela mídia, pelas agências e até pelo próprio público? Porém, em toda correnteza há sempre alguém que nada contra e foi o que resolvi fazer. Recusei-me a aceitar que não posso, que não sou, que nunca serei. Simplesmente decidi que eu sou. Porque nunca engoli que eu deveria ser como o fulaninho, mas decidi ser eu mesmo em toda e qualquer circunstância e mostrar para quem quiser ver que ser diferente é normal, que homem pode usar qualquer peça e que querer que os outros sigam um padrão é torturar o ser humano lhe submetendo a uma condição. Padronização? Não. Vale mais a diversidade.

Por um mundo onde você possa ser o que quiser, de verdade.

Abraços!

Por Daniel Saraiva em 19 de abril de 2017

Medo do que os outros irão dizer – uma frase forte que só de ouvir já causa um frio na barriga em muita gente. Percebemos o quão desagradável ela se torna quando é a nós que ela é dirigida, chegando até mesmo a nos causar uma certa retração em algumas situações. Vivemos numa sociedade onde estamos sujeitos a passar por críticas alheias, principalmente sobre o nosso modo de vestir, ou seja: usar tudo aquilo que queremos e da maneira como gostamos não é uma tarefa fácil.  Só de pensar na quantidade de coisas que deixamos de fazer ou roupas que desistimos de vestir por medo de uma segunda opinião me faz refletir sobre até que ponto estamos vivemos nossa vida de acordo com o que queremos.

Já se perguntaram o que vocês deixaram de fazer por medo do que irão falar? Não é necessário ser algo perigoso ou maluco, basta lembrar das vezes em que você se sentiu receoso com o que estava vestindo. A situação se torna pior quando você, ao entrar numa loja, sente vontade de usar ou comprar determinada peça, mas a mídia ou pessoas próximas a você te fizeram acreditar que não tinha “o corpo ideal” ou estilo para vesti-la. É nesse momento que percebemos o quão chato é quando opinam no que você veste, sempre achando que estão ajudando, quando na verdade tudo isso acaba te reprimindo. Opiniões assim são como uma prisão, que te limitam de tal maneira que sua identidade vai embora para tentar se encaixar em um molde do agrado de outros.

Se tem uma coisa que aprendi nesses anos de blog e de moda é que a frase “ fulano está passando vexame com tal roupa” é algo muito singular e não uma regra. Talvez para você o “passar vexame” sejam homens de cropped, mas para esses homens quem passa vexame são pessoas com opiniões tão chatas como essa. É por isso que devemos respeitar a decisão de cada um na hora que se escolhe usar o que deseja, pois só você mesmo saberá o que te faz sentir-se bem.  Por muito tempo vivi situações assim, quando pessoas próximas a mim insistiam em me enfiar suas opiniões goela abaixo com frases como “você é tão bonito, não precisa se vestir dessa forma. Homem não precisa usar calças tão coladas. Você não tem vergonha de usar esse tipo de roupa?”. Foi então que respondi para mim mesmo: e daí? E daí se eu gosto de usar roupas coladas, e daí se às vezes costumo misturar peças bem opostas, e daí se uso jaquetas no calor, se isso me faz sentir bem?  Não precisamos nos importar com opiniões alheias, sério. Só quem sabe o melhor para você é você mesmo, então comece a amadurecer a ideia de que segundas opiniões nem sempre lhe acrescentam. É necessário que você se desprenda dessa barreira que estão criando em relação ao que você veste e a tudo o que diz respeito à sua vida, afinal é você o roteirista, diretor e personagem principal e só você pode decidir sobre qualquer coisa, certo?

E para quem gosta de opinar sobre as roupas de outras pessoas, uma dica: você não é obrigado a achar tudo lindo, mas é seu dever respeitar e só expor sua opinião quando convidado a fazê-lo. Caso contrário, não interfira no vestir do outro. Achar um estilo bonito ou feio são concepções suas, não tem por que mudar, mas amadureça a ideia de que cada um é livre para usar o que deseja e não cabe a ninguém interferir.

Por fim, é necessário entender que não precisamos de mais críticos de estilos, na verdade precisamos de influenciadores de liberdade, esses que sempre nos motivam a sermos livres apenas sendo nós mesmos. E cá entre nós, não há nada mais lindo do que essa autonomia. Por isso, chega de se limitar pelas opiniões alheias. Que possamos todos os dias nos moldar de acordo com a nossa própria essência, com base naquilo que realmente acreditamos, afinal de contas para quem mesmo é que a gente se veste?

Abraços!