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“Na dúvida sobre o que vestir no casting de desfile opte por roupas totalmente pretas e de preferência use botas, pois elas passarão a ideia de que você é alto. Como somos modelos baixos dificilmente pegaremos desfiles, mas temos que passar essa falsa impressão de altura”, disse uma amiga que hoje é considerada uma das melhores modelos do Brasil e já pisou em várias passarelas. Essa foi sua resposta após eu lhe pedir ajuda em relação ao que deveria usar, logo que entrei nesse mercado. Apesar de possuir 1,80m de altura, para o mercado eu era considerado sempre muito baixo e isso me deu uma insegurança a qual carreguei comigo durante anos. Nunca imaginei que após essa conversa passaria tanto tempo indo a seleções usando somente botas e calças pretas com o objetivo de dar aquela falsa impressão.  Nos castings sempre era necessário mentir minha altura, pois se chegasse falando a verdade certamente seria descartado de imediato.

Mas esse tipo de atitude não era privilégio meu, havia modelos que assim como eu escolhiam sapatos com o solado o mais grosso possível também, no intuito de dar mais altura. Tudo isso porque modelos femininas de passarela tinham de 1,78m a 1,80m e com salto poderiam ficar maiores que os modelos masculinos e, claro, para o mercado não é esteticamente atraente mulheres mais altas que os homens. E são em momentos assim que surge o questionamento: de onde vem essa ideia de que homem não pode ser mais baixo do que mulher?

Ainda buscando respostas, vale ressaltar que a vida não se resume apenas as passarelas, ou seja, isso não é apenas um problema meu. Houve tempos em que tive a oportunidade de conversar com alguns garotos e até com alguns amigos e sempre era mencionado durante a conversa a já tão conhecida insatisfação com a altura, mesmo sabendo que todos estão no padrão de estatura brasileiro. Mas, e então, podemos dizer que a culpa é somente da moda? Não, mas matérias e dicas que o mercado insiste em pregar, como “dicas para alongar e afinar a silhueta” dão mais ênfase a esse complexo. Já cheguei a ler jornalistas e blogueiros mencionando o quão ridículo é um homem usar peça que dá a aparência de mais largo ou que lhe deixam “achatado”. Matérias como essas também circulam facilmente entre o mercado feminino, criando um padrão de estética de que o elegante são mulheres altas e magras. Infelizmente, com isso é criado um falso padrão de beleza prejudicando mulheres que não possuem esse biotipo e isso acaba afetando também os homens, mesmo que indiretamente, pois criamos a teoria (e algumas mulheres insistem em dar força para isso) de que homens devem ser mais altos que mulheres. Percebem o quanto isso é uma situação delicada?

Entendam, essas inseguranças (que não são exclusividade minha) modelos femininas, por exemplo, sempre têm receio com relação a estrias, celulite e quadril maior do que o padrão. Nos garotos a altura, barriga, cabelo, calvíce ou espinhas são características que até podem ser melhoradas, mas que tudo isso depende de existir uma aceitação por parte da pessoa e seu desejo de mudar ou não, porque é algo que está no seu corpo, como característica sua. Demorou muito para que essa insegurança saísse de mim, na verdade achava eu que jamais viveria sem ela. Durante a sessão de fotos sempre pedia o fotografo que fotografasse debaixo para cima, na tentativa de me alongar. Essas inseguranças podem lhe dominar, caso você não revide e comece a se impor. É preciso entender que características assim não te fazem menos atraente ou um modelo ruim. É necessário que se reconheça o talento que você possui sem precisar focar apenas no que te diminui, mas principalmente valorizando o que você realmente é.

Lógico que nem tudo se resume a essas matérias, mas é importante entender que você não precisa deixar de usar uma peça de roupa porque ela te deixou mais largo ou mais baixo, afinal isso de maneira alguma tira sua beleza. Mulheres, vocês não precisam se parecer com algumas modelos em questão de corpo. Homens, não é necessária “altura de modelo de passarela” para ser considerado bonito. Não deixe de apostar nas roupas que você quer independente delas te deixarem mais isso ou aquilo, afinal o que vale não é a aparência, mas a identidade e personalidade que você tem ao vestir roupas assim. Devemos sim, nos desprender cada vez mais desses rótulos. Se peguei passarela com minha altura? Poucas, daquelas de se contar nos dedos, mas isso não tira o crédito de coisas grandiosas das quais já tive o prazer de participar. E incrível como elas só apareceram agora, após desistir de tentar me encaixar no molde que o mercado queria me impor para finalmente passar a ser eu mesmo.

E quanto às marcas, é preciso repensar se o padrão imposto nos seus desfiles é algo conivente com nosso país multicultural e multirracial, pois há muito tempo os desfiles deixaram de ser eventos apenas para profissionais da moda para se tornarem abertos ao consumidor final. Bom, espero que minha opinião esteja valendo, afinal quem vos fala não é apenas um modelo que é considerado baixo para seus padrões, mas um cliente que também não se sente representado nessas ocasiões muito menos se encaixa nos já tão batidos padrões.

Abraços!

Padrão: de acordo com essas definições que a gente encontra nos dicionários, significa “modelo a ser seguido ou exemplo a ser copiado”. Automaticamente me vêm à cabeça aquelas frases comparativas que ouvimos na infância, quando nossa mãe diz “você deveria ser como o fulaninho. Olha só o fulano, aquele é que é um menino bom. Por que você não faz igual a ele?” Pronto, bastam essas comparações pra gente começar a se sentir mal, afinal não somos o tal fulano e muito menos gostaríamos de ser. Tudo o que queríamos, na verdade, era sermos amados, aceitos e compreendidos do jeito que éramos, meio desengonçados, amarrotados, envergonhados ou mesmo com a nossa timidez.

O fato é que crescemos ouvindo esse tipo de comparação e aquilo vai mexendo com a nossa autoestima. Porém, há uma ponta de esperança. Acreditamos que na vida adulta as coisas serão diferentes, afinal adulto faz o que quiser, certo? Errado. Quer dizer, era pra ser o certo, mas não é bem assim que as coisas funcionam. A gente cresce e pode fazer as próprias escolhas, mas o fantasma do padrão ainda nos assombra e agora mais vivo do que nunca. Quer entender melhor? Então experimenta ser diferente do que todos estão acostumados a pensar que é o mais bonito, o melhor, o que deve ser seguido.

Quer um exemplo? Tenho vários. Coloque uma modelo com número 42 desfilando para uma grife famosa. Entendam, estou me referindo a modelo, nada de digital influencer, atriz ou alguém que já tenha um público fiel e cativo independente de qualquer coisa. Dará certo? Não tem nem perigo. Ninguém aceitará, pelo contrário: o número 42, que cá entre nós, é sim, um número como qualquer outro, será excluído, humilhado, massacrado e comparado ao 38, ao 36, etc e começará toda aquela história que a gente já conhece. Outro exemplo, que por sinal é bem comum: quantas modelos negras se vê num desfile aqui mesmo, nas passarelas do nosso país?

Agora dê uma olhada ao seu redor e me diga: o número de pessoas negras nos comerciais, nas campanhas, nas novelas, no teatro, nos desfiles e no cinema é correspondente ou proporcional ao da população brasileira? Claro que não, afinal inventaram algo chamado padrão e criaram para ele um monte de regras que a maioria de nós está longe de conseguir /querer seguir. São padrões que não são nossos, mas que nos impuseram e todos os dias tentam nos fazer engolir goela abaixo, como se fôssemos obrigados a nos adequar ao que os outros querem e não sermos o que realmente somos.

Contudo, não seguir, não fazer parte, ser “diferente”, implica na maioria das vezes em ser também excluído. Gente gorda na moda só ganhará espaço como modelo plus size, não apenas como modelo. Haverá sempre um rótulo para diferenciar um modelo de um “modelo negro”, como se só a palavra modelo representasse gente comum e todos os outros considerados fora do padrão precisassem de uma palavra-complemento, um sufixo, uma explicação. Mas não somos todos gente comum? Deveria mesmo existir essa separação? Eu entendo que há uma segmentação de público, de estilo, de gosto, que há moldes que são desenhados para esse ou aquele corpo, com essas ou aquelas medidas. Porém, acima de tudo, somos humanos. E ser humano é ser igual em direitos, é precisar de representatividade, mesmo com suas particularidades.

Quando decidi seguir a carreira de modelo eu sabia que seria difícil, mas não imaginava que fosse tanto. Imaginem só um cara magro, sem músculos definidos ou barriga tanquinho estampar campanhas de marcas de roupa ou de acessórios! Como vender produtos masculinos não sendo o padrão masculino esperado pela mídia, pelas agências e até pelo próprio público? Porém, em toda correnteza há sempre alguém que nada contra e foi o que resolvi fazer. Recusei-me a aceitar que não posso, que não sou, que nunca serei. Simplesmente decidi que eu sou. Porque nunca engoli que eu deveria ser como o fulaninho, mas decidi ser eu mesmo em toda e qualquer circunstância e mostrar para quem quiser ver que ser diferente é normal, que homem pode usar qualquer peça e que querer que os outros sigam um padrão é torturar o ser humano lhe submetendo a uma condição. Padronização? Não. Vale mais a diversidade.

Por um mundo onde você possa ser o que quiser, de verdade.

Abraços!

Sabe aquele trabalho que te enche de alegria? Pois é, tem um bem especial que eu gostaria muito de compartilhar aqui com vocês. Na verdade eu até já tinha mencionado antes, teve texto e tudo, mas surgiu uma nova oportunidade e eu precisava registrar tudo aqui, porque há outras coisas muito importantes envolvidas nisso além da parceria com uma marca internacional, claro.

Bom, apesar de já ter dito anteriormente, gostaria de ressaltar que o primeiro contato que tive com a Zaful foi através de um email que eles me enviaram dizendo que me encontraram por meio do meu blog e que meu estilo havia chamado a atenção, pois muito se adequava à sua proposta. Nesse primeiro contato aconteceu algo meio trágico: tive problemas com a entrega das peças e acabei tendo que pagar pelos impostos, além de uma delas ter sido roubada durante o percurso, pois eram duas jaquetas e recebi apenas uma. Um outro fator que atrapalhou bastante foi o tamanho das peças, pois a numeração não correspondia à que eu uso e acabei tendo que me virar com o número errado mesmo.

Meses depois a marca fez um novo contato sugerindo uma nova colaboração, que recusei, devido à experiência passada. Porém, eles insistiram e disseram que mudaram os procedimentos da entrega e a grade do tamanho de roupas, e que havia muito interesse em fechar essa parceria comigo. Na entrega realmente foi diferente, além do prazo ser mais curto eles me auxiliaram no processo da escolha, mostrando grades de tamanhos internacionais e brasileiros para que eu pudesse escolher a peça do tamanho certo.

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Peças Zaful: Moletom, Óculos.

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Bom, deu super certo. Mas sabe o que é mais bacana disso tudo? Não é só ter fechado duas vezes parceria com uma marca internacional. É saber que, embora vendendo peças femininas, eles procuraram um modelo masculino e viram em mim o potencial para usá-las, independente do gênero especificado na etiqueta da roupa. E quer saber? Se essas etiquetas não sinalizassem esse público, ninguém ia saber. As peças são lindas, algumas têm estampas floridas, outras, detalhes minuciosos, mas quem disse que homem não pode usar roupa com um cunho mais delicado?

Cheguei à conclusão de que não é uma etiqueta que define uma roupa. Acho que já é hora de pararmos de rotular algumas peças e nos prendermos àquilo que queremos realmente usar. Já imaginaram quantas vendas podem ter sido perdidas por uma loja de roupas voltada para o público feminino não abrir as portas também para o masculino? Quem sabe muitas de suas peças não vistam ambos os gêneros e você nem tenha percebido? Na verdade a gente tem a mania de considerar agênero peças mais folgadas e com a mesma padronagem de tamanho, mas será que é realmente isso que estamos procurando?

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Peças Zaful: Boné, Sobreposição

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Acredito que haja ainda muitos tabus a serem quebrados em relação a isso, fato. Mas acredito também que o público masculino já tenha uma mente um tanto aberta em relação a isso, embora ainda precise evoluir bem mais nesse sentido. Mas, quem sabe com o tempo não possamos voltar a ter a liberdade que havia nos anos 80, quando muitas roupas eram vendidas como unissex? Aliás, pensar que há umas três décadas era possível que homens e mulheres usassem as mesmas roupas e saber que hoje, em pleno 2017, esse é ainda um tabu a ser quebrado é um tanto esquisito, não? Gratidão à Zaful por escolher um modelo masculino para peças femininas e mais gratidão ainda por esse modelo escolhido ter sido eu, Daniel Saraiva. E que venham mais oportunidades assim. Prometo não olhar a etiqueta.

Abraços!

Por Daniel Saraiva em 22 de fevereiro de 2017

Homem que é home não pode… E assim começam muitas histórias de machismo, preconceito e intolerância. Vivemos em uma sociedade machista, isso é fato. E por mais que tenhamos avançado em alguns pontos, ainda é complicado para um homem optar pela vaidade quando ela não envolve músculos bem trabalhados ou estilo bad boy. A masculinidade está quase sempre associada ao homem barbado, malhado, de terno, camisa gola polo ou bermuda. Mas claro, ser homem é muito mais do que isso.

Eu sempre gostei de me vestir diferente. Sempre me senti bem assim. E isso muitas vezes me causou alguns problemas, a maioria deles relacionada ao preconceito, seja da família, dos amigos ou até mesmo de desconhecidos que chegaram a me olhar com ar de bizarrice. Porém, nunca me intimidei. Pelo contrário, sempre procurei cada vez mais peças diferenciadas, que tivessem a ver com a minha personalidade e não me fizessem sentir mais um na multidão. Não que eu queira ser mais ou melhor do que ninguém, pelo contrário. Essa postura na verdade me fez incentivar outras pessoas a também vestirem o que querem, em especial o público masculino. Sim, porque as mulheres, de certa forma, já possuem alguma liberdade em relação à vaidade, à beleza, às cores e estilos. Homem, infelizmente, ainda não. Uma mulher, por exemplo, pode sair por aí usando calça e se sentir feliz da vida, inclusive, se ela quiser, a calça pode lhe sair um item super sexy. Agora imaginem o contrário – um homem andando por aí de saia. Já existe, não é? Porém, isso quase não é aceito, embora a aceitação não seja lá o principal, até porque ninguém tem nada a ver com o que os outros usam ou deixam de usar. Mas gostando ou não você tem que respeitar.

Segundo a nossa sociedade, há algumas regras que devem ser seguidas à risca pelos machos alfa em questão: não tirar a sobrancelha, não se depilar, não usar calça skinny, não usar maquiagem, não usar peças do guarda-roupa feminino, não… Olha, são muitas, e se eu for listar todas precisaremos de um outro post só para destacá-las. Porém, já dá para se ter uma noção de que aquilo que define a nossa masculinidade está ligado a comportamentos enraizados em nossa sociedade desde uma época em que moda era um assunto longe de merecer ser discutido. E isso, claro, é muito injusto conosco, homens do ano XVII do século XXI.

E vocês sabem quem são nossos maiores inimigos? Nós mesmos, claro. Tenho a impressão de que o homem por si já nasce preconceituoso – com os outros e com ele mesmo. Mas claro, a culpa não é só nossa. Somos criados ouvindo a velha e cansada frase “homem que é homem não pode” e lá vem aquela lista de coisas que mencionei ali em cima, inclusive, há um quesito não mencionado, mas bem tradicional: o choro. Então, se você também já se sentiu oprimido, não precisa mais engolir o choro. Chegou a hora de nos expressarmos como bem quisermos e a maneira como nos vestimos é uma boa opção maneira para se começar.

Bom, preciso dizer que fácil não é. Você precisa, antes de tudo, vencer seus próprios medos, receios e preconceitos. Precisa dizer a si mesmo que você pode e passar a ter a consciência de que se você quiser mesmo que as coisas sejam diferentes, é bom começar a agir diferente. Pra que a sociedade mude alguém precisa começar. Muitos já começaram, mas quem os acompanhará? Quem terá a coragem de deixar de lado o macho man interior para finalmente se tornar um homem livre? Bom, que você não faça por modinha, mas pelo real significado da moda: de que ser você mesmo é a melhor maneira de expressão. E que você se sinta bem sendo vaidoso, diferente ou até mesmo seguindo a multidão.

Abraços!