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Por Daniel Saraiva em 8 de março de 2017
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Hoje eu resolvi dar uma pausa dos textos para o público masculino e escrever para as mulheres. Tudo bem, eu sei que vai parecer que é só porque é 8 de março e que no resto do ano eu não me importo, mas eu quero dizer que me importo, sim. E muito. E há muitos homens que assim como eu se importam também.

Hoje eu queria dizer a vocês o quanto me envergonho. Não que eu tenha feito algo errado, mas por nunca ter cobrado o certo. Infelizmente nós, homens, crescemos em uma sociedade que nos diz que somos mais fortes, que temos mais direitos e que merecemos inclusive ganhar salários mais altos que os de vocês. Quando crianças, ganhamos jogos de estratégia, quebra-cabeças com grandes níveis de dificuldade, carros, postos de gasolina, bonecos de super-heróis e mais outra leva de brinquedos que nos ensinaram que tudo isso é coisa de menino. Enquanto isso, nossas irmãs ganhavam conjuntinhos de panela, fogões, bonecas com mamadeiras, casinhas e personagens de contos de fada ou bonecas loiras de corpos esculturais que incentivavam o consumismo e a cultura da futilidade.

Hoje eu queria dizer a vocês que nunca entendi por que azul é de menino e rosa é de menina. Quem criou essa lei? A gente já nasce num mundo padronizado, cheio de regras que não fazem o menor sentido, mas que a gente acaba esquecendo de questionar. Aliás, eu sempre quis saber por que nas brincadeiras os meninos eram os médicos e as meninas, as pacientes. E por que essa brincadeira sempre ganhou uma certa conotação sexual, já que médico é pra ser um profissional sério no qual as pacientes depositam sua confiança e não um mau caráter que se aproveita de uma mulher em situação de vulnerabilidade. E isso me faz perceber o quanto nossa sociedade é doente e o quanto ensinaram errado pra gente.

Hoje, mulheres, eu queria dizer a vocês que às vezes tenho receio de me aproximar quando estou em um transporte coletivo lotado e preciso passar por vocês. Eu receio ser confundido com os outros milhões de homens que se aproveitam, abusam e oprimem. Eu queria que nada disso existisse, que o respeito fosse a regra e não algo ainda a ser ensinado. Eu queria dizer também que me sinto péssimo quando atravesso a rua e uma de vocês está sozinha na minha frente e se põe a andar apressadamente, com medo de ser assediada. Sinto-me mal por saber que esse é o resultado de inúmeras agressões, assédios, estupros e assassinatos. E me sinto ainda pior quando vejo que a realidade ainda está longe de ser modificada. Quando sei que o nível de remorso sentido pelos seus agressores se iguala a nada.

Mas acima de tudo eu quero dizer a vocês, mulheres, que não acreditem quando disserem que vocês não podem, que não aceitem nenhum tipo de agressão, que não levem desaforo pra casa. E nunca, jamais, aceitem apanhar em casa. Vocês não precisam passar por isso, não precisam se submeter a nada e não têm que aceitar ofensas de ninguém. O mundo não pertence a quem agride, massacra ou oprime. O mundo pertence a quem, apesar de tudo o que vem sofrendo ao longo dos séculos, resiste e não desiste de conquistar seu lugar. O planeta é de vocês, não tenham receio de ocupar.

 

Com respeito e admiração,

Daniel Saraiva.